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Todo mundo nasce com 10.000 textos ruins dentro de si

Passei as tardes desta semana (re)aprendendo a desenhar. Foi lá na Quanta, com o Anderson Nascimento.

Escrever bastante, familiarizar-se com o processo de escrita e com o trabalho de grandes escritores, naturalmente, nos ajudam a melhorar a coisa. Entretanto, se considerarmos o processo criativo de um ponto de vista mais amplo, gosto de pensar que podemos desenvolver nossa sensibilidade de diferentes maneiras.

Será que, além de praticar a escrita, aprender a desenhar (mesmo que, como eu, num nível elementar), a criar brinquedos e instrumentos musicais com sucata e cantar, dançar ou fazer música – será que vale a pena, para o (aspirante a) escritor, dedicar algum tempo a outras atividades criativas ou seria desperdício, um desvio improdutivo do que realmente importa?

Há quem considere melhor dedicar toda a energia disponível à evolução na forma de arte escolhida. Não penso assim. Mesmo que meus rabiscos me frustrem e que meu violão permaneça dolorosamente encostado (porque não sei nem dedilhar), desenhar, pintar, cantar, tocar flauta e jogar capoeira – as diferentes modalidades de expressão artística, desde que não a substituam, podem enriquecer, e muito, a escrita.

Sou entusiasta, portanto, de uma ‘formação integral’ da sensibilidade, versus o afunilamento técnico. Com frequência, caminhar para o lado, em vez de ceder à obrigação de seguir em frente, nos torna mais abertos e criativos. Com apenas uma ressalva: precisamos ter clareza do que queremos, para evitar ficar pulando de um lado para o outro sem avançar de fato em nenhuma direção.

Voltando ao curso de desenho: o Anderson citou a frase de um desenhista famoso, de cujo nome, naturalmente, não vou me lembrar. Era assim:

“Todos nascemos com 10.000 desenhos ruins dentro de nós”.

Uau! Fiquei com vontade de aplaudir! Seja para quem desenha, seja para quem escreve, a moral da história é uma só: treino, prática, persistência – escrever, desenhar, fazer música pelo prazer da criação, sem pressa quanto aos resultados. É assim também nos esportes: a proficiência exige dedicação, e todos os caras que hoje a gente admira tiveram de ralar muito para chegar lá.

Se todos temos 10.000 textos ruins dentro de nós e eu e você queremos escrever bem, só nos resta uma saída: botá-los todos para fora. Então, ao esgotar a reserva, começaremos a escrever os bons. Se bem que, tendo produzido 10.000 textos, desenhos ou melodias, você não vai mais se preocupar se o que você faz é ‘bom’ ou ‘ruim’. É indiferente.

Pode parecer bastante, mas, é bom que se diga, o ritmo somos nós mesmos que ditamos. Depende do nosso grau de urgência, do nosso grau de paixão. Caso você dedique oito horas por dia à sua prática, em uns poucos anos terá se livrado da carga. Por outro lado, publicar um post no seu blog pessoal de vez em quando ou deixar um recado para você mesmo na porta da geladeira a cada duas semanas – bem, você poderá levar um certo tempo até cruzar o limiar… Poderá, inclusive, acabar desanimando pelo caminho.

Portanto, é necessário gostar e fazer o que se gosta. Fora isso, acho saudável reservarmos um tempinho para nos livrarmos de alguns de nossos desenhos desproporcionais e fora de perspectiva, além das melodias desafinadas e coreografias bizarras. Isso também conta (embora de um jeito meio diferente).

Enfim, gostei tanto desta história dos dez mil, que vou adotá-la como um mantra, da próxima vez que escrever um texto, reler e ficar com aquela sensação (sabe aquela sensação, que mesmo os escritores profissionais costumam ter?). Vou repetir para mim mesmo:

“Um a menos…”.

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Um comentário em “Todo mundo nasce com 10.000 textos ruins dentro de si

  1. Fala André,
    Fico feliz que tenha curtido! Ainda vou descobrir o autor dessa frase.
    A solução é sempre produzir e produzir… até perder a conta! Quando olharmos para trás esses dez mil já eram… Não importa se na forma de texto, desenhos ou notas músicais.

    Parabéns pelo texto e tudo de bom para vc! Grande abraço.

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